“Veta, Dilma”?

“A dificuldade de sustentar o interesse voluntário na questão da escolha das pessoas que vão governar você é algo bem patente. E a razão pela qual precisamos de intelectuais, bem como de todos os bons jornalistas que pudermos encontrar, é preencher o espaço que cresce entre as duas partes da democracia: os governados e os governantes.” Tony Judt

Há muitas questões a serem suscitadas a partir de um enunciado simples que recorrentemente vem sendo divulgado nas redes sociais, na mídia televisiva, e nas revistas e jornais. Ficamos todos espantados com a chuva de “Veta, Dilma” das últimas semanas. Mas afinal, por que ficamos surpresos?

Não deveríamos nos surpreender pois o que acontece é bastante comum na história do Brasil em seu suposto período democrático. Mais uma vez, o povo brasileiro esteve aquém das discussões a respeito de seu futuro e resolveu, na última hora, agir de alguma forma, nem que fosse da menos inteligente: suprimindo o debate qualificado e implantando palavras de ordem! E por que isso acontece? Ora, as propostas de reforma de um Código Florestal que substituísse o de 1965 acontecem há 13 anos no Congresso Nacional, majoritariamente fomentadas pela enraizada bancada ruralista. Por que só agora a preocupação com um debate que povoou a última década?

Colocar o foco da discussão nas disputas partidárias frente aos interesses de ambientalistas ou ruralistas é baixar muito o nível do debate. Precisamos entender que o que está em jogo, verdadeiramente, é o projeto de desenvolvimento a ser implantado no Brasil do século XXI. E isso é da maior importância, pois diz respeito à toda à sociedade e também às futuras gerações. Nos parece descabida a atitude de nossos congressistas de escrever o “Relatório Rebelo” e depois colocá-lo para a votação do plenário como sendo o “Novo Código Florestal”. Para que investimos em escolas, professores e no conhecimento científico se, nos momentos das decisões mais importantes, a população não se insere no debate como realmente deveria e membros da classe política parecem fazer vista grossa às ricas contribuições que a ciência brasileira, em sua complexidade, poderia garantir à legislação ambiental?

Há objetivos implícitos ao discurso que postula a necessidade de reformar a Lei Federal 4771 de 1965 que instituiu, com embasamento científico referente à época, o Código Florestal vigente. São objetivos múltiplos e pautados nos interesses de diferentes camadas sociais específicas. Mas é possível notar claramente a necessidade de, com o “Novo Código Florestal”, os agentes hegemônicos de poder (o Estado e o capital privado, principalmente) obter agilidade na execução de seus empreendimentos com o afrouxamento de uma das legislações ambientais mais avançadas do mundo no que se refere à preservação da biodiversidade. Pelo caminho do desenvolvimento econômico, nos parece que tudo é justificável. Só se esquece de justificar que a natureza é um sistema dinâmico no qual o ser humano também está envolvido, e a busca de seu equilíbrio é que gera subsídios para um desenvolvimento não apenas econômico, mas essencialmente humano. Isso é que está em voga para toda a humanidade, não os benefícios imediatos que a exploração de recursos naturais pode gerar à uma camada restrita da sociedade.

Não é possível aceitar que só a forma vigente de exploração dos recursos naturais seja viável. Estamos, há décadas, mergulhados numa revolução técno-científica-informacional que consegue avanços primorosos, temos investimentos em pesquisa, somos um povo com enorme potencial criativo quando nos colocamos diante dos desafios. Não é possível não depositarmos inteligência no debate sobre o projeto de desenvolvimento de Brasil que queremos e deixarmos que nossa biodiversidade seja explorada aos moldes de como era no período colonial. Será que a história não nos é suficiente para mudarmos nossa postura passiva diante das decisões políticas ou será que não conhecemos suficientemente nossa história?

Apesar de ter sido criado em meados da década de 1960, o Código Florestal vigente obteve resoluções, como a CONAMA de 2002, que o complementaram com o passar do tempo. É um texto que dá conta da natureza como totalidade, considerando a importância das interações dos elementos que constituem sua dinâmica: geologia, relevo, clima, solos, hidrografia, vegetação. Ele regulamenta as formas de uso do território em diferentes escalas e ambientes com objetivo de garantir a preservação. Obviamente que a tecnologia, o pensamento científico, a competitividade dos mercados em diferentes escalas, as relações de poder no plano das decisões políticas sofreram mudanças relevantes que justificam a reformulação do Código Florestal. No entanto, o novo texto nos traz alterações que subestimam os avanços científicos das últimas décadas em diferentes saberes como a genética, a biologia, a farmacologia, a agronomia, a ecologia, as ciências naturais como um todo. Além disso, nos parecem constantemente ignorados os debates internacionais, promovidos por ambientalistas sérios e lideranças mundiais, bem como as inovações tecnológicas trazidas por saberes mais técnicos, como é o caso de ramos das engenharias comprometidos com a exploração dos recursos naturais de forma a reduzir impactos.

Há muitas questões internas ao texto do “Novo Código Florestal”, mesmo o retocado pelo senado federal, que a população precisa entender mais a fundo para se posicionar diante do projeto de desenvolvimento brasileiro proposto. E muito desse entendimento vem do conhecimento dos saberes científicos atrelados à importância da biodiversidade para nós brasileiros e toda a humanidade. No entanto, até o dia 25 de maio (prazo último para o posicionamento da presidente), nos parece inevitável suplicar um “Veta, Dilma” para que o debate qualificado sobre o “Novo Código Florestal” possa existir efetivamente em um momento posterior, caso realmente o queiramos. Se não for assim, ficamos no aguardo de qual será a nova palavra de ordem a ser gritada emergencialmente nos contextos de impasses políticos vindouros. Gritada, talvez, sem tanta surpresa ou espanto como atualmente.

Boas vindas ao novo autor

ConnectionGeo contará, em breve, com a participação do companheiro de pesquisa Douglas Scaramussa Pereira, que muito tem a contribuir para a Ciência Geográfica como um todo e, consequentemente, para esse espaço de divulgação e pesquisa da Geografia, da Educação e da Tecnologia.

Sua entrada no ConnectionGeo, que conta com pouco mais de um ano desde suas primeiras atividades, representa uma nova fase em nossas publicações, focando sempre no diálogo entre os três importantes pontos priorizados por nós: Geografia, Educação e Tecnologia.

Continuem conectados e até breve!

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